segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Malu, Memórias de uma Trans

O quadrinista Cordeiro de Sá lançou no final de setembro de 2013 o álbum “Malu, Memórias de uma Trans”, pelo selo RP HQ, que já produziu dois álbuns coletivos do projeto “Ribeirão Preto em Quadrinhos”, indicados ao prêmio HQMix 2013.

Em 40 páginas, Sá mostra a história de Malu, que serve de pano de fundo para expor a realidade que habita o universo da transexualidade, como as questões familiares, a violência das ruas e as transformações do próprio corpo.

Leia a seguir a entrevista com o autor de “Malu”:

A FALECIDA - Como você chegou a este tema, da transexualidade, para a sua nova HQ?

CORDEIRO DE SÁ - Eu reencontrei no Orkut uma amiga de infância que conheci menino. Agora, ela estava no processo de transformação física. Conversamos muito por MSN, quase um ano, até que um dia passando por Valinhos, minha terrinha natal, acabei viajando com ela para São Paulo. Dentro do ônibus nós falamos da infância como bons amigos e eu percebi que isso incomodou alguns passageiros: como é que eu poderia estar falando com uma travesti como se fosse amigo dela? Caminhando com Alessandra até o metrô, lá no terminal Tietê, é que me veio a ideia daquilo virar um documentário. Como a RPHQ fazia sucesso e quadrinhos são minha melhor área de expressão, o caminho foi certo. No final, o que era para ser documentário acabou virando romance, mas o efeito é o mesmo.

A FALECIDA - É um tema que gera intenso debate, expõe preconceitos. Como você pensava o assunto antes e agora, depois do trabalho?

CORDEIRO DE SÁ - Olha, eu aprendi muito, conversei com muita gente e pude acessar muitas visões de mundo diferentes. Então, esse trabalho foi uma jornada. Eu sempre fui sensível ao tema, pois tenho grandes mestres, amigos e ex-alunos memoráveis que fazem parte do que chamamos "universo LGBT", mas agora entendo que o conhecimento é pouco perto do contato humano. Pessoas trans (travestis, transexuais, transgêneros) são, em sua maioria, gente corajosa e criativa, que tem que inventar e reinventar estratégias de sobrevivência diariamente. Então, porque é que a gente joga tanto capital humano fora?

A FALECIDA - Quanto tem de real e de ficção em 'Malu'?

CORDEIRO DE SÁ - Cara, Malu é toda embasada em realidade, em depoimentos colhidos, em leituras de revistas específicas (busquei as revistas por serem a cara do dia a dia) e em casos que eu já conhecia. A ficção apenas serve para amarrar os fatos e dar o tempero dramático necessário para se contar a história. Os personagens são fictícios, mas poderiam existir, tranquilamente.

A FALECIDA - Como foram as conversas com as pessoas que relataram seus casos para a história?

CORDEIRO DE SÁ - Algumas conversas foram via Facebook ou telefone, outras foram em encontros casuais, como em eventos culturais ou políticos, por exemplo, e outras foram em entrevistas mesmo.

A FALECIDA - Como foi o processo de produção? O lance dos cenários em fotos e os personagens sobrepostos...

CORDEIRO DE SÁ - O processo de produção foi acontecendo. No começo eu tinha planejado apenas pesquisar e escrever, com o Saulo Michelin desenhando em formato Mangá. Eu acreditava que o traço dele chamaria mais a atenção dos jovens. Mas o prêmio do PIC [programa de incentivo cultural da prefeitura de Ribeirão Preto/SP] acabou demorando um pouco para ser pago e o Saulão precisou assumir outro trabalho, deixando o projeto. Aí, eu resolvi encampar tudo. Como não sou bom de Mangá, fui beber na fonte de Cartuns como "Hora de Aventura", "Apenas um Show" e "Incrível mundo de Gumball". Além disso, já faz um tempo que tenho perseguido um traço mais simples, muito influenciado pelo trabalho do cartunista DUD (RPHQ, HomemApaga). Então, fiz os thumbnails das páginas e comecei a fotografar. A cidade natal da Malu é, em sua maior parte, Sacramento/MG, com direito a sofazão da minha sogra. A capital é Ribeirão Preto, mas tem imagens de cidades da região também em alguns detalhes, como o Carrossel ou o Auditório da última pagina. Depois eu desenhei por cima. Tudo arte digital. Não usei lápis na Malu.

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